Sobre a invasão da Reitoria da USP - versão atualizada
Está em todos os jornais e semanais: a invasão da Reitoria da USP já dura mais de 20 dias. Não há imprensa que eu tenha visto que defenda esta ação. A Veja até chama o grupo de baderneiros, mas como muita gente torce o nariz para a revista, basta ver a Istoé ou a Época para notar que não há muito apoio para o movimento.
Estou acompanhando de perto tudo isso. Não sou uspiana, não me formei na ECA, mas um dia (duas vezes) prestei a Fuvest. Minha irmã é médica formada pela USP, o que conheço da instituição vivenciei em 3 anos de FMUSP. Acredito que em todos os cursos deve ter aquele núcleo que quer "salvar a universidade e mudar o mundo". Mas enquanto muita gente está ocupada estudando e tentando se formar, outros estão fazendo rodinhas de música na porta da reitoria.
Sejamos justos: a Universidade de São Paulo não é perfeita. Faltam quartos e acomodações para tantos que precisam, falta verba para pesquisa - o que colocaria a universidade em posição privilegiada entre os pesquisadores. Mesmo assim, a cada ano, mais e mais gente quer estudar na USP, seja na graduação ou na pós-graduação. Na graduação, o curso é gratuito. Na pós, dependendo da faculdade, é uma fortuna. A reivindicação dos alunos por mais moradia é correta, mas invadir propriedade do estado, depredar e usar a bel prazer não me parece a melhor forma de ter razão.
Eu não acredito em mudar o mundo como acreditam os que estão acampados na reitoria. Não acredito em Che Guevara no poster da parede e não acredito em Esquerda brasileira. Acho que o movimento estudantil parou nos caras pintadas. Não acredito na UNE, que já teve sua importância histórica e hoje está reduzida a carteirinhas, que aliás, qualquer um pode falsificar. Tudo isso é utopia, mas há quem ainda acredite. Para mim, quem acredita nisso não está no dia-a-dia da cidade grande tentando trabalhar, ganhar a vida, ter uma carreira e uma família. São idealistas. São muitos os idealistas que moram na USP - alguns há mais tempo do que o curso permitiria....
O que, aliás, me leva a uma das reivindicações que li no jornal: os estudantes querem ter mais tempo para concluir o curso. (Me corrijam se estiver errada). Um curso regular demora 4 anos; um aluno tem até 7 anos para concluir. Eu me formei em 5 anos. Ainda tenho 2 de sobra, de acordo com as regras da USP. E não é suficiente????????
A grande briga, na verdade, diz respeito às finanças das universidades públicas paulistas - USP, Unicamp e Unesp - e a tal "autonomia". Os alunos querem manter a autonomia da reitoria de fazer o que bem entender com o dinheiro público; o governo estadual quer saber como este dinheiro está sendo usado, principalmente as grandes quantias. Nada mais justo. Numa comparação simples, qualquer cidadão quer saber o que foi feito com o dinheiro pago nos impostos, não?
Se o dinheiro público estiver sendo mal empregado, todos saberemos. Se estiver sendo bem utilizado, mas insuficiente, a "fiscalização" será mais uma prova de que é necessário investir na educação superior pública.
Na USP, eu sei, há divisão de classes. Há os cursos de primeira grandeza, como a Tríplice Coroa (Direito, Medicina e Engenharia). Há o "shopping da FEA", uma faculdade com estrutura física que se destaca entre tantas do campus. E estes alunos sabem o quanto custa entrar na USP, pois uma faculdade particular não é viável para muitos.
Há alunos e alunos, mesmo nos cursos acima. Na FMUSP conheci gente que vinha de carro importado para a faculdade, como conheci aqueles que moravam na residência estudantil e dependiam de mesada para o material didático. Acho que em todos os cursos há alunos de todo tipo. E não vejo ninguém das faculdades acima entre aqueles cantarolando e dedilhando violão na porta da reitoria.
Aos alunos grevistas: É preciso dar valor ao que se tem. É preciso reconhecer que você está estudando em uma universidade pública, sem gasto algum com mensalidade, e que muita gente por aí queria ter a chance que você tem. Conheci estudantes em cursinho pré-vestibular gratuito que daria tudo para ter a sua vaga na Física, enquanto você está empilhando cadeiras e atrapalhando as aulas que ainda insistem em acontecer. Se há uma ordem de reintegração de posse, que se cumpra. Não digo que a Polícia tenha que usar de força, mas sim, que se faça presente, pois defender uma legislação de 1964 é estar, no mínimo, fora de contexto. Saia da faculdade e pague sua mensalidade. Só aí você vai dar valor à sua formação.
Atualização: uma amiga me corrige dizendo que a Universidade pública não é gratuita, e sim, sustentada pelos nossos impostos. O que quero dizer é que não há mensalidade. Além disso, a lista de reivindicações é muito mais extensa do que consta neste post. Não entro no mérito dos professores, que certamente têm as suas, e questiono apenas parte do que os alunos listaram.
